2018-04-17



Foto da Web



ABRIL PODERIA TER SIDO EM MARÇO…ou de como os militares, em 1974, tiveram dificuldades em comunicar e se viram envolvidos num fogo cruzado de informação e de contrainformação, envolvendo oficiais oriundos da Academia e sendo outros milicianos.
Mas o 16 de Março, garante Manuel Monge, não foi um engodo de ninguém e muito menos do PCP. A operação desencadeada pelo RI5, das Caldas da Rainha, tinha como objetivo primeiro reagir às anunciadas demissões de Spínola e de Costa Gomes pelo regime de Marcelo Caetano.
 Manuel Monge diz sentir mágoa pela situação fortuita que levou ao falhanço do 16 de Março, nomeadamente as hesitações dos Paraquedistas que – segundo ele – eram incapazes de desobedecer à cadeia de comando e que, por isso, não deveriam ter sido contactados. Foi um erro, diz o general Monge, apesar de as Ordens de Operações apenas incluírem os Paraquedistas numa situação de “reserva”. Mas garante que estava tudo preparado pelo Movimento dos Capitães, incluindo o empenhamento de Otelo e de Jaime Neves, por exemplo e de outros elementos do RI5 como Casanova Ferreira.
Contudo, Adelino de Matos Coelho – tenente de infantaria à altura do acontecimento, que integrou a coluna das Caldas e que viria a ser preso na sequência do fracasso – disse ao Centro de Documentação 25 de Abril, de Coimbra, que “…no dia 13, em Santarém e em Lisboa, os tenentes (oriundos de cadetes) Rocha Neves e Moreira dos Santos, do RI nº 5, participaram em reuniões destinadas à distribuição do “plano de operações” de um golpe militar previsto para 14, o qual foi anulado. Regressados de Lisboa, ao princípio da madrugada 14, os tenentes trouxeram esta informação porque os pára-quedistas necessitariam de dez dias para preparar a acção. Assim, ficámos a aguardar novas indicações.
Em ALVORADA EM ABRIL, Otelo Saraiva de Carvalho descreve aquele plano, “elaborado no dia 11, em casa do major Casanova Ferreira, com a participação de Monge, José Maria Azevedo, Geraldes, Luís Macedo e Garcia dos Santos, parecendo uma brincadeira de garotos, cada um atirava o seu objectivo para cima da mesa (…), tendo sido feito sobre o joelho, sem força nem estrutura de qualquer espécie (…).”
Mas José Maria de Azevedo, então major – recordo – apesar desta apreciação negativa de Otelo, havia estado na base do 1º documento do Movimento dos Capitães. Já o próprio mo havia confirmado, mas igualmente Vasco Lourenço o disse ao Centro de Documentação 25 de Abril a propósito da reunião em casa de Marcelino Marques em Janeiro de 1974, e na qual aparece Melo Antunes, que Vasco Lourenço não conhecia: “(…) o José Maria Moreira de Azevedo que era um major, hoje coronel de Administração Militar que ficou encarregado de elaborar um projecto e eu quero ir mais avançado, entrar já em questões de natureza política e sou eu que o convenço e que digo. Nem pensar nisso, tu tens que aparecer com um documento mais atrasado que aquilo que tu queres e vais aparecer com um documento quase só com questões corporativas. (…) E aí o José Maria Moreira de Azevedo levou uma tareia por causa do documento estar muito pró, que ele não queria. Bem, a certa altura irritou-se, atirou com os livros ao chão - “Eu não estou para vos aturar, eu não quero saber mais nada disto. Eu vou-me embora”. Eu puxei-o e disse: “Estás a ver que estamos a atingir o que queríamos. Se tivesses trazido um documento mais avançado estavas a levar tareia porque estavas longe de mais. Estás a levar tareia porque estás muito aquém daquilo que a malta quer e agora vai sair daqui uma posição, vai ser dado um salto qualitativo muito mais do que tu alguma vez imaginaste.” “Mas não estou para vos aturar”. “Não, mas atingimos os objectivos e agora vais ficar na comissão de redacção do próximo documento.” E ele. “Nem penses nisso!” Mas acabou por ficar.”

Para além do episódio com os Paraquedistas, Manuel Monge refere igualmente problemas de última hora com alguns dos militares do CIOE de Lamego que não puderam tomar parte na operação. No fim, acrescenta, acabou por assumir a responsabilidade juntamente com Casanova Ferreira, tendo sido presos na Trafaria. Foram libertados na tarde do dia 25 de Abril por uma unidade de Vendas Novas. Era para ter sido uma força do Batalhão de Estremoz, mas foi preciso desviar esses militares para ajudar Salgueiro Maia no Largo do Carmo.
Apesar de tudo, Manuel Monge não sente desilusão com a sequência do golpe de 25 de Abril, excetuando talvez o problema da descolonização, cujo obreiro foi Melo Antunes, num período difícil da Guerra Fria. Pior não era possível – diz o gen. Monge – que não se esquiva igualmente a criticar o que chama de infiltrações esquerdistas, nomeadamente da Marinha, cujo rosto mais visível era o de Rosa Coutinho e que “nunca fez nada para o Movimento”. Por outro lado, o já Movimento das Forças Armadas, apesar das tentativas de Spínola, não conseguiu arregimentar o poder interventivo da ONU, ao contrário do que viria a passar-se anos mais tarde com a sensibilização para a resolução do problema de Timor-Leste.
E sobre a União Europeia, o gen. Monge diz que a Organização sucumbiu atualmente aos interesses do grande capital e da Alemanha, notando igualmente que há uma gritante falta de líderes e de liderança.
A propósito do 25 de Abril de 1974, quero ainda deixar um excerto de uma entrevista que o Coronel Castro Carneiro deu em 2014 aos alunos do Instituto Multimédia do Porto Tomás Cazaux e João Farpa, sob minha orientação. Castro Carneiro, que aderiu ao Movimento dos Capitães em Angola, em 1973, foi o oficial encarregado de distribuir as Ordens de Operações do golpe pelas unidades da Região Militar do Norte (Lamego, Vila Real, Chaves e Bragança), a partir do CICA, no Porto. Nessa entrevista, aquele oficial confessa que o sigilo era fundamental. Nem a sua mulher sabia dos movimentos para que foi destacado. E destaca que o «golpe» foi, de facto, um ato de desobediência.   
António Bondoso
Jornalista
Abril de 2017. (Versão actualizada em 2018).   


2018-03-29


A BANCA (E OS SEUS DESVIOS) É COMPATÍVEL COM O ESPÍRITO DA PÁSCOA?

Foto de Ant. Bondoso


E A BANCA CONTINUA A “COMER” TUDO…

Não sou polícia, não pertenço às FA, não sou médico, não sou enfermeiro, não sou guarda-prisional, não sou funcionário do SEF, não sou taxista nem tachista, não sou guarda-florestal, não sou professor diplomado nem sindicalizado, não sou piloto de aviões nem tripulante de cabine, não pertenço a qualquer categoria de investigadores bolsistas ou bolseiros, não tenho capacidade reivindicativa. Sou apenas um aposentado! Jornalista mas aposentado…cujo valor da “reforma” não só foi congelado desde 2010, como foi drasticamente diminuído durante a troika PPC/PP/CS e que o atual governo não repôs, apesar dos anúncios de verdadeira engenharia financeira. Essa, no período a que me refiro, já deu aos “bancos” 17 mil milhões (E VAI AUMENTAR!), que todos temos vindo a pagar, com o sacrifício indesmentível dos pensionistas/reformados que, no máximo das suas capacidades, apenas se limitam a consultar os recibos.
Confesso não pensar atirar-me do alto de uma ponte ou sentar-me ou acampar à porta da residência do 1ºM ou na rampa do Palácio de Belém que tem uma acentuada inclinação. Mediático, sem dúvida, mas não deve ser prático.  
Então, prometo – como forma última de protesto – deixar de vir às redes sociais às segundas, quartas e sextas protestar contra os governantes e contra os deputados. Prefiro fazê-lo às terças, quintas e sábados – dias mais propícios a uma folga de pensamento e ao descanso mental.
António Bondoso
Jornalista
Março de 2018. 



2018-03-01


ÁGUAS DE MARÇO...

Águas de Março e dos meses passados
Vão trazer Abril e Maio
De cravos molhados
Fazer germinar uma árvore gigante
Com ramos e cores
De magia pendente.

E encher os rios de água corrente
Cristais nos caminhos de um mar distante
Diamantes perdidos
De um sol tardio
Esmeraldas, rubis
Em palavras cobertos
Com todas as letras e pontos nos is.
========A. Bondoso
Março 2013.  
Em O RECOMEÇO, 2014. Edç Esgotadas. Pg.54



António Bondoso
Jornalista

2018-02-28


Como é bom ser “reconhecido” em vida!
A propósito de ter sido o poeta convidado do Clube ASAS DE POESIA para a sessão de 24 de Fevereiro de 2018, na Biblioteca José Vieira de Carvalho, no Fórum da Maia. 




Como é bom ser “reconhecido” em vida!
Em “memória”, a homenagem não deixa de ter o seu sentido e o seu significado, sobretudo para orgulho dos familiares e amigos do peito, mas ver e sentir o seu trabalho ou a sua obra serem apreciados nesta presente caminhada terrena, é uma sensação que deixa perceber o quanto estamos de bem com a vida, mesmo tendo em conta todos os escolhos que aparecem diacronicamente “programados”.
Mas é mesmo bom ser reconhecido em vida!
Não por meio de uma comenda cada vez mais em voga; não através de um busto que faça corar o espelho; não correndo o risco de ver o nome pespegado numa laje de granito indicando o sentido de uma artéria citadina – mesmo que os dados sejam fornecidos por um GPS de última geração.
Em qualquer caso, é mesmo muito bom ser reconhecido em vida!
Sendo suspeito, talvez faça sentido dizer que – apesar de tudo – a dita “homenagem” terá sido um exagero, havendo seguramente pessoas de outro gabarito.
Direi até que é mesmo reconfortante ser reconhecido em vida!
Não pelo jornalista que fui – ainda sou, embora na «reserva» - mas pela poesia que tenho partilhado. Deixo, portanto, o meu apreço ao simpático e acolhedor, empenhado e dinâmico Clube ASAS DE POESIA, da Maia. Mensalmente há um convidado de «honra», completando-se a sessão com a evocação de um grande poeta de outros tempos. Eu tive a felicidade de poder “ser acompanhado” pela figura ilustre de uma poetisa de grande caráter e de uma dimensão intelectual ímpar: - a «desalinhada» Irene Lisboa. Deixo igualmente escrito um carinhoso agradecimento aos Amigos que puderam e quiseram estar presentes – eles sabem quem são! – particularmente aos que viajaram de longe e, sobretudo, aos que viajaram de muito longe, muito longe além dos mares, trazendo-me o assobio do «ossóbó» encantado das Ilhas do Meio do Mundo.

Não esquecendo os habituais declamadores do «Asas de Poesia» (a Manuela Carneiro, que sublimou OS PRIMEIROS BISAVÓS; a Cristina Pessoa, que tão bem soube navegar no MEU MAR…DONO DO MUNDO; a Ana Freitas, de Coruche, que entendeu de forma magnífica que A MINHA MÚSICA…É O MAR; a Dulce Morais, que adocicou UM BRASIL BRASILEIRO; o Dionísio Dinis, que disse de forma vigorosa ATROFIADO POETA…NÃO! POETA REPRIMIDO…NUNCA!; e o António Portela, que percebeu a necessidade de O RECOMEÇO), a minha gratidão estende-se ainda à Filomena Mesquita e à dinamizadora Teresa Gonçalves; e à música de Orlando Mesquita, Manuel Bastos e do Grupo de Violas e Cavaquinhos da Universidade Sénior Rotary de Matosinhos, na qual tenho a honra de colaborar. E depois declamou-se Irene Lisboa, faltando-me referir o Francisco, de Coruche, o Francisco Félix Machado, a Maria do Amparo Bondoso e o José Brites Marques Inácio. 




Todos juntos, ajudámos a integrar e a absorver o espírito poético da tarde de Sábado passado aos jovens estudantes Santomenses, no Porto, Jéssica Conceição, Vanda Almeida e Ekilson Fasbel, os quais assumiram a responsabilidade de cantar como o ossóbó dizendo o meu poema sobre S.Tomé EM TEMPOS CHAMEI-LHE MINHA: «Era ali que eu existia./E tinha pela frente o mar/ Imenso/ Com ondas de calema e tanta espuma./ Contava carneirinhos a perder de vista/ E sonhava com os mistérios do mundo:/ Que era ali, todo inteiro/ Até onde meus olhos alcançavam./ Tudaxi sá glávi…tudo kwá sá dôxi (…) Chamei-lhe minha no tempo/ Quando a hsitória me ensinou/ Era ali que eu existia/ E é ali que sempre estou./ Lá longe, desse lugar/ Onde o mundo se divide/ Chegam-me os novos sentidos/ Mas continuo a escutar/ O canto do ossóbó./ Também melodioso, um papagé repete: ainda lhe chamo minha, ainda lhe chamo minha, ainda lhe chamo minha…».
Fui parar à minha ilha de sonho através de uma janela «por onde espreito a intimidade do mundo/ Viajo supersónico/ Para além do Azul/ Quando pressiono o botão do meu rádio de pilhas».
E foi de lá que estiveram também comigo o Américo Gradíssimo e o Manuel Xavier – que me emociona sempre que falamos da ilha do Príncipe – e recebi igualmente, nesse espaço acolhedor que é a Biblioteca municipal que leva o nome de José Vieira de Carvalho, um abraço sentido do médico e grande poeta José Brites Marques Inácio.
Todos eles me ouviram dizer por exemplo que, «da inocência do pós guerra em Moimenta da Beira à infância, à adolescência, ao crescimento livre, à juventude adulta e ao casamento em STP…vai todo um mundo de contradições e de esperanças, conjugando emoções várias que, há mais ou menos 20 anos, tenho vindo a conseguir passar ao papel, sobretudo em linguagem poética. E é e foi este lastro, traduzido com simplicidade em quase 40 anos de uma profissão apaixonante na Rádio (também na TV) e na formação audiovisual – tem sido esse lastro a dar-me a oportunidade de partilhar com todos os que me vão lendo um “mar imenso de ideias, de ideais, de emoções – vividas e sentidas – de paisagens deslumbrantes”. E evitando uma difícil, objetiva e concreta definição de poesia (à qual reconheço, como Antero, a sua função social), cito apenas Mário Quintana: a poesia é para abalar, não é para embalar…e quem faz um poema abre uma janela».




António Bondoso
Jornalista
28 de Fevereiro de 2018. 





2017-12-21

OS AMIGOS BONS...DESPEDEM-SE ANTES DO NATAL!




ACHAS?
Há sempre uma hora, há sempre um dia. Que nós, como verdadeiros Amigos de quem somos, desejamos vá sendo adiado. Mas o momento é inevitável. E hoje, pela pena do filho Rui na página do pai, chegou a tristeza de uma nota em tom poético sobre o passamento do Tozé Cardoso Pinto. Conheci-o há muitos anos, trabalhava ele na RDP, em Lisboa, depois de ter emprestado a sua voz e a sua sensibilidade à Rádio em Angola. Cardoso Pinto nasceu em Malanje. E conhecemo-nos no Porto, por ocasião de uma visita de trabalho do então Diretor de Informação José Gabriel Viegas. Depois, fomos mantendo o contacto, embora o Tozé tenha preferido deslocar-se para a área dos programas, ali mesmo À Esquina da Um. Tinha mais a ver com a sua forma de estar, com a sua sensibilidade, com o seu ritmo. Um tom que ele deixava transparecer quando me respondia : «achas»?
Pois o Tozé foi seguramente uma das pessoas mais responsáveis pela minha ida para Macau trabalhar na TDM. E foi lá, também com ele, que eu me fui apaixonando pelo gosto de trabalhar as palavras. A minha poesia ganhou forma ali na Rádio, em Macau. Obrigado Tozé pela Amizade, grato pelo teu cuidado e teimosia em querer trabalhar comigo. O meu abraço em estereofonia – bem expresso neste prefácio da Inês Pedrosa ao teu livro A LUA DOS ASTRONAUTAS NÃO É A MINHA LUA:
" CORAÇÃO EM ESTEREOFONIA "
Cercar de fogo as margens brancas da rádio é um labor delicado,
porque aqui o fogo tem que arder no escuro, como diria Camões
se ouvisse telefonia.

Há que fazer com que a palavra pareça música, a música pareça segredo
e ambas abracem aquilo que do outro lado é solidão.
Como a poesia, ou com ela. Cardoso Pinto sabe disto e sabe a isto.
Trabalha-se com o coração à beira-boca no limiar da absoluta invisibilidade,
no palco do puro instantâneo.

... Com mais ou menos estereofonia, o desafio continua suspenso pelo mesmo precário fio de sintonias: a transparência da palavra, o grão da voz.
Cardoso Pinto disse, e agora escreve: "reflectindo, reflectimo-nos".

Disse e escreveu pequenas histórias de estrelas e sábios passeando pelo céu imenso de uma cidade irresistivelmente violenta.
O que ele disse escreve-se.

Há coisas assim que ditas já são outras verdades.
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António Bondoso
Jornalista.
21 Dez. 2017




UM NATAL COM JUSTIÇA!
Afinal...a Justiça deveria ser e estar Todos os Dias...


NÃO ME VENHAM FALAR DE NATAL!
FALEM-ME DE JUSTIÇA!
(Atualizando o que escrevi em 2015, percebendo a sem-vergonha de PPCoelho, Cristas e quejandos. Dou de barato o triste espetáculo da oposição na AR, mas não posso deixar passar em claro a barbaridade da afirmação do ainda líder do PSD sobre não ter memória de um ano tão trágico).
Não me venham falar de Natal, quando a miséria, a pobreza, a desigualdade entre os homens de todas as raças se acentua; não me falem de Natal quando os “donos disto tudo”, banqueiros e mercados sem rosto, somam cada vez mais às suas fortunas roubando o produto de quem trabalha e de quem já trabalhou; não me falem de Natal quando os jovens não têm futuro na terra onde nasceram; não me venham falar de Natal quando as migrações são cada vez mais forçadas por situações de guerra e perseguições políticas – da Síria ao Sudão, da Líbia ao Iraque, da Sérvia ao Kosovo, da Albânia à Turquia, do Líbano a Israel, da Rússia à Palestina, do Paquistão à Índia, da Indonésia às Filipinas, da China ao Tibete, do México aos Estados Unidos, da Alemanha à Hungria, do Congo ao Chade, da Tunísia ao Burquina Faso, de Angola ao Zimbabwe, do Brasil à Venezuela, de Myanmar ao Ruanda ou ao Quénia. Não me falem de Natal quando as crianças em todo o mundo são violentadas pela fome e pela escravidão.
Não me venham falar de Natal.
Falem-me de Justiça.
Não me falem de Natal, quando os doentes passam cada vez mais situações críticas já mesmo à porta das farmácias – quando não, até à porta de suas casas. Não me venham falar de Natal quando os avós e os pais já não conseguem – em cada dia – fazer face ao desespero dos filhos. Não me falem de Natal, quando há situações diárias de pais e filhos desavindos. Não me venham falar de Natal, quando há escolas e hospitais que não funcionam por falta de verbas. Não me falem de Natal quando a violência doméstica é cada vez mais comum; não me falem de Natal quando os vizinhos se agridem por uma flor de jardim ou por um arbusto saído; não me venham falar de Natal quando as alterações climáticas – resultado sobretudo das ambições desmedidas do “homem” – conduzem à morte do nosso planeta a um ritmo assustador.
         Não me venham falar de Natal apenas em Dezembro, exatamente numa altura que o ainda líder do PSD se lembrou de dizer que não tinha memória de um ano tão trágico em Portugal. Certamente se esqueceu – pois não tem memória – dos 1216 casos de suicídio registados em 2014. E nos anos do seu (des) governo, patrocinado pela Troika e por Cavaco Silva, também não se recorda das pessoas que perderam as suas casas para os bancos (que ele alimentou com milhões) ou daqueles que se viram obrigados a emigrar ou a desfazer-se de muitos dos seus bens para enfrentar os efeitos dos cortes cegos – sobretudo nas pensões de reforma. É trágico recuperar uns quantos euros, tendo em conta as centenas/milhares de que fomos esbulhados? Não me falem de Natal, quando esse fulano se permite dizer o que disse. Certamente não tem memória dos 10 mil milhões que o fisco deixou fugir para os paraísos fiscais entre 2011 e 2014, tal como não tem noção da gravidade em que deixou este país mais triste à beira-mar plantado, tal como referia em Novembro de 2016 o jornalista Nicolau Santos: “        É este o Estado que temos: sem poder para mandar naquilo que é verdadeiramente essencial para definir uma estratégia de desenvolvimento. E o que é espantoso é que quase tudo tenha acontecido em tão pouco tempo (entre 2011 e 2015, pouco mais de quatro anos) e que estivéssemos tão anestesiados que o não conseguíssemos evitar.”
Falem-me de Justiça e de Consciências Iluminadas.
Já enviei, aceitei e retribuí mensagens de Boas Festas. Sobretudo para os amigos que muito considero. Mas não me falem de Natal, quando percebo nesses gestos apenas uma circunstância de moda. Não me venham falar de Natal quando se consomem fortunas em decorações de rua e nas casas de cada um, apenas para umas horas de mesa e de companhia desfeita; não me falem de Natal quando o consumismo se concentra em figuras como a Popota ou como a Leopoldina. Não me venham falar de Natal, quando as compras e as trocas de presentes são a razão única de estabelecer um convívio de amigos e de famílias.
         Não me venham falar de Natal…por tudo isto!
    Falem-me de Amizade presente e desinteressada, falem-me de Justiça, dos verdadeiros valores do humanismo como a solidariedade e a humildade. O Natal é isto. Sobretudo isto! Mas também admito que, sendo eu um desalinhado, possa – no limite – estar a ver o mundo ao contrário!
António Bondoso
Jornalista  
 



2017-12-17

S. Tomé e Príncipe.
PRECISO E CONCISO…
…ou de como se vai matando a saudade!


PRECISO E CONCISO…
…ou de como se vai matando a saudade!

E foi preciso ter ido como foi importante ter nascido. E foi preciso crescer e foi importante viver; e foi preciso perceber e foi importante saber; e foi preciso sentir e importante partilhar. E foi preciso amar…muito mais do que a paixão. E foi preciso querer…muito mais do que parecer. E foi preciso perdoar…muito mais do que acusar. Foi preciso muito mais do que passar de raspão. Foi preciso não só ser, como importante saber estar; foi importante pescar as dores caídas no mar, como foi preciso remar contra marés que tardaram. E foi preciso entender como deveria ter sido. E foi preciso aceitar como tudo se passou. Só assim fará sentido todo um tempo de saudade. Importante é perceber que houve uma impossibilidade histórica, para podermos caminhar no sentido da memória. Se disso formos capazes, preenchendo as lacunas, só é preciso respeito de todos por cada um – como é fundamental uns e outros chegarem ao ponto comum. Daí ao ponto futuro, todo o trajeto é mais curto.
Foi preciso ter saído e fundamental ter voltado. Foi preciso ter partido e depois ter regressado. E foi preciso ter ido…tanto, como por lá ter nascido!


António Bondoso
Dezembro de 2017. 

2017-11-21

Celebrar S. Tomé e Príncipe - um desígnio meu. 
Desta vez, a propósito de uma memória do Dr. Manuel Ferreira Ribeiro, natural da Maia, pioneiro da investigação sobre a profilaxia da malária, entre 1869 e 1898.


A semana passada coloquei nas redes sociais (nomeadamente no facebook) uma memória sobre S. Tomé e Príncipe, destacando a figura do médico Manuel Ferreira Ribeiro que viveu, estudou e trabalhou uma dúzia de anos nas ilhas do meio do mundo. Ali chegou em 1869, tendo assumido a Direção dos Serviços de Saúde em 1871. Nas ilhas teve a oportunidade de viver “4 vidas”: - médico, investigador nas questões ligadas à malária, jornalista (fundou o jornal Equador - (…) Equador (1869) foi o primeiro jornal independente do arquipélago, e assumia-se como Semanário Agrícola, Comercial e Científico – e escritor (publicou muitos trabalhos e alguns livros sobre o desenvolvimento daquelas terras). Passou ainda 2 anos em Angola, 1877/1879, como médico da Expedição dos Estudos do Caminho-de-ferro de Ambaca – na linha Luanda/Malanje. Nesse âmbito, organizou em Lisboa quatro ambulâncias (hospital móvel na gíria militar) e publicou instruções higiénicas e de medicina preventiva destinadas sobretudo aos europeus que se deslocassem aos vales dos rios Cuanza e Lucala.
De salientar que ainda em Angola, tirando proveito dos seus conhecimentos, foi-lhe pedido que organizasse ambulâncias que servissem para as campanhas das obras públicas naquela colónia, bem como, um sanatório em Luanda, destinado aos expedicionários que necessitassem de primeiros socorros.
Quando o Dr. Manuel Ferreira Ribeiro chegou a S. Tomé, o território havia já entrado na chamada 2ª colonização – precisamente pela introdução das culturas do café e do cacau nos anos 20 do século XIX. Por essa altura, as condições no sector da saúde não eram famosas. Havia que criar condições para fixar os brancos europeus e, por outro lado, evitar que a malária prejudicasse o rendimento dos serviçais das roças.
As bases desse trabalho foram então lançadas, sendo mais tarde seguidas por outros médicos e investigadores – lembrando por exemplo os médicos já do século XX Melo Sereno, na Roça Água Izé; João Botica, na empresa Vale Flor (roças Rio do Ouro e Diogo Vaz nomeadamente); e o Dr. Mourão, nos Serviços de Saúde das ilhas, recordando-me ainda das campanhas do “flit” – DDT – para a erradicação do paludismo nos de 1950 e de 1960 concretamente.
Pois o Dr. Manuel Ferreira Ribeiro, que nascera em 1839 em Rebordãos, Águas Santas – Maia, viria a falecer na pobreza completa em 16 de Novembro de 1917, em Lisboa, sendo provável que tenha assistido ao funeral do primeiro grande poeta de S. Tomé – Caetano da Costa Alegre – em 21 de Abril de 1890, em Lisboa, onde terminava o seu curso de medicina na Escola Médico-Cirúrgica. Costa Alegre tinha 26 anos de idade. Ferreira Ribeiro exercia por essa altura funções na Direção Geral do Ultramar, só regressando a STP em 1892 para a sua segunda comissão de serviço. Assinalando a efeméride, organizei no passado dia 16 de Novembro, na Universidade Sénior Aprender a Viver/CES Pedras Rubras, na Maia, uma pequena homenagem na presença dos alunos – 2 dos quais familiares de Ferreira Ribeiro. Para além de dois pequenos filmes sobre as ilhas e sobre os escritores de STP, os alunos disseram poemas de autores de S. Tomé e Príncipe, por mim escolhidos. De Costa Alegre (1864-1890), como já referi, evocaram-se os SERÕES de S. Tomé
(…) A nossa terra é tão bela!
Duma beleza sem par,
E por ser assim formosa
Fê-la sua amante o mar. (…)
… de Alda Do Espírito Santo (1926-2010), professora e política, foi dito  A UMA MIRAGEM (1958), em O CORAL DAS ILHAS, de 2006
(…) Partir, partir para o destino das aventuras da glória
Romper as paredes do cárcere
É talvez um sonho marginal
Na prisão sem grades de muitas ilhas humanas
Onde o sonho flutua. (…)
… de Conceição Lima, jornalista (1961), escolhi INEGÁVEL (em A DOLOROSA RAÍZ DO MICONDÓ, de 2006)
(…) Casa marinha, fonte não eleita!
A ti pertenço e chamo-te minha
Como à mãe que não escolhi
E contudo amo.
… de Olinda Beja (1946), professora em Portugal, selecionei À SOMBRA DO OKÁ, (obra com o mesmo título, de 2016)
(…) ali ninguém mais se atreverá a negar-me o chão
a negar-me a mátria, o húmus materno doce e quente e
quente e húmido
o catre onde sempre estirei meu poema e minha mágoa e
minha sede.
… de Francisco José Tenreiro (1921-1963), geógrafo, professor e político em Portugal, o poema CANÇÃO DO MESTIÇO, em ILHA DE NOME SANTO (1942)
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como que se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço! (…)
         Ainda tempo para um poema meu (1953-1974 em STP) LEVE-LEVE, em SEIOS ILHÉUS, de 2010
(…) Às vezes sinto que o tempo caminha
Sorrateiro atrás de mim
Perseguindo memórias cheiros e paisagens
O ser e o estar de um ilhéu de mil imagens. (…)

António Bondoso
Jornalista
Novembro de 2017

2017-09-30


REFLETIR

Refletir, refletir – é a palavra d’ordem neste sábado que é o derradeiro dia de Setembro do ano da graça de 2017. 


REFLETIR
Refletir, refletir – é a palavra d’ordem neste sábado que é o derradeiro dia de Setembro do ano da graça de 2017. Que bom que é refletir! Acordar, espreguiçar na cama antes dos alongamentos das pernas e do espírito, que faz bem à coluna, abrir os olhos e o pensamento ao mundo, que não vai bem – como se sabe: do Afeganistão ao Iraque, da Turquia ao Curdistão que avança, da Coreia do Norte aos EUA, da Venezuela ao Brasil, do Congo à República Centro Africana e ao Mali, da Polónia e Hungria ao Estado Espanhol (ai Catalunha! Que a manipulação da informação e contrainformação não atinja o ponto de sem retorno), da Rússia à Ucrânia, das Caraíbas ao México, do Nepal à China, do Paquistão à Índia, de Angola a Moçambique, da Grécia a Portugal. Refletir aqui, neste promontório da Europa onde procuramos levantar-nos do chão depois dos ataques soezes dos mercados e da alta finança sem rosto. É o tempo de uma geringonça cujo esforço político merece reflexão e aplauso, é um tempo em que o futebol clama ainda as nossas emoções, apesar da tecnologia manipulada pelo homem. Porque hoje é sábado…aproveitemos para refletir sobre as atitudes de domingo, com alegria e tolerância. Muito para além da mesquinhez e ambição dos homens.



A.Bondoso
Jornalista
Setembro 2017. 


2017-09-21


EXPODEMO 2017 EM MOIMENTA DA BEIRA - A MAÇÃ NO TOPO DO MUNDO.


A maçã não deve ser vista como um fruto proibido – antes deve ser apreciada como um carismático fruto do jardim deste universo…ou de como a Cultura pode constituir um sólido incentivo às atividades económicas, quer através de parcerias, quer intervindo diretamente com a imagem da chamada economia criativa. É assim que se tem pensado em grandes metrópoles mundiais [no Rio de Janeiro, por exemplo]…é assim que se tem procurado trabalhar em Moimenta da Beira – particularmente por ocasião da EXPODEMO. 
         E de um certame que pretende mostrar o que de melhor se produz na região – a maçã e o vinho à cabeça – rapidamente se conseguiu a envolvência da música, do teatro de rua, da pintura mural, das artes plásticas.
         E tudo se renova nesta edição de 2017 onde, a par das tradicionais Jornadas Agro Frutícolas, se desenrolam um mega treino de Karaté, em frente aos Paços do Concelho; o teatro de rua FAUNO – uma produção da Artefício; a atuação do Coro Mozart; o concerto inaugural de Cock Robin e a atuação da Orquestra CEM NOTAS e do Grupo de Cantares de funcionários da Câmara Municipal de Moimenta da Beira. Ainda no programa se consideram atividades acrobáticas, circo, estátuas vivas e cozinha ao vivo.
         A EXPODEMO 2017 abre na sexta-feira com um encontro de empresários com representações da AICEP e da Embaixada de Espanha e, logo após a inauguração – presidida pela Ministra da Presidência – pode ser apreciada a exposição de Adriana Henriques LUZ, COR E MAÇÃ.
         No dizer de José Carlos Peixoto, veterano docente na Universidade do Minho, neste trabalho – que fala da maçã como fruto da terra, das raízes e da luz – as imagens nascem e alimentam-se da terra, uma «sedução» que cresce à medida que absorvemos o sumo e a textura da maçã. Adriana revela-se neste «desejo de ser», nesta «compulsiva vontade de partilhar», nesta viagem «pelo interior», nesta vulnerabilidade de «olhar» e do que é «olhado». A «tentação da maçã» revela-se na paixão pela estética, no «amor pela arte», na «confidência dos enredos», sem acreditar na maçã como fruto proibido, como pecado original, mas como um carismático fruto do jardim deste universo”.
Enquanto a sua exposição/instalação estará patente no átrio da Câmara Municipal de Moimenta da Beira até 15 de Outubro, Adriana Henriques prepara-se para desenvolver no hospital de Braga um laboratório sobre a cor, sobre a luz e sobre a saúde, agregando médicos, enfermeiros e doentes de cardiologia, com a particularidade de ser aberto à população.

Adriana Henriques
António Bondoso
Jornalista

2017-08-30


A MODA DAS ALDEIAS…ou a subjetividade das mais bonitas.
Eu, por exemplo, gosto muito de Paçô ou de Baldos, no concelho de Moimenta da Beira.
É comum dizer-se hoje que vivemos numa aldeia global, mas a verdade é que – para além de todas as autoestradas da informação e da onda incessante de novas tecnologias que nos oferecem o planeta ao simples gesto de um clique – há sempre comunidades a descobrir. Algumas que se mantiveram esquecidas por motivos diversos, outras que foram sendo abandonadas pelos efeitos migratórios. Mais umas quantas, felizmente, descobertas em tempos recentes, despertaram o interesse de gente empenhada e motivada. Preservar um modo de vida com a qualidade impossível nas grandes metrópoles…
         Já referi comunidades mas há quem lhes chame povoados, pequenos povoados, aldeolas, povoações rurais ou pequenas povoações de organização simples e sem autonomia administrativa.
         Pois é destas localidades que muito se tem falado nas últimas semanas, particularmente a propósito da “eleição” das 7 mais, a sair de um lote de 49 selecionadas, e que serão anunciadas a 3 de Setembro. Não questiono métodos nem princípios…mas, como disse, gosto particularmente de Paçô e de Baldos, em Moimenta da Beira. Não é que essas tenham uma particularidade específica, mas simplesmente por uma questão de proximidade. E também pela história que as rodeia se tivermos em conta por exemplo Lamego e S. João de Tarouca. Baldos, porque os meus olhos a fixam sempre que paro por estas Terras do Demo de Aquilino Ribeiro; Paçô, porque por ali passo para aqui chegar…e até pela lembrança que me traz o habitual cumprimento dos habitantes da Ilha do Príncipe – lá longe no Golfo da Guiné, no meio do mundo, talvez com uma explicação idêntica à que se atribui ao Passô/Paçô daqui da Beira Alta. Passou por aqui o Bispo? Passou. E de Passô ou a Paçô foi apenas um passar. Também na ilha do Príncipe as pessoas se cumprimentam quando passam. 

Excerto de OS OITO CONCELHOS DE MOIMENTA DA BEIRA
A. Bento da Guia

Quanto a Baldos, como disse, é lá que se fixa o meu olhar quando – sentado na varanda – aprecio a paisagem imensa do espaço a que chamei a Terra das três montanhas, as quais não me deixam ver o Távora a correr para o Douro. E foi durante a construção da barragem no Távora nos anos de 1960 [Vilar de seu nome foi inaugurada em 1965] que Baldos também serviu de base logística – nomeadamente colocando a sua Escola ao serviço dos filhos dos trabalhadores no empreendimento. E depois há aquela nota de Monsenhor Bento da Guia, em Os Oito Concelhos de Moimenta da Beira [3ªedição, Agosto de 2001], sobre os tempos da reconquista de terras aos mouros onde se empenharam os chamados “presores godos”. Citando o Elucidário de Santa Rosa Viterbo, Bento da Guia recorda que esses presores “criaram vilas rurais, vilares e casais que deles receberam os nomes, como Leomil, Baldos, Alvite, Toitam, Mileu, Segões, Sever e Ariz”. 

Ant. Bondoso

Não é que estas aldeias tenham mais ou menos encanto do que outras agora mais nomeadas. Mas têm certamente uma história que eu não pretendo deixar passar em claro, destacando referências bibliográficas de muita valia. E, por outro lado, há até palavras a que emprestei alguma poesia não faz muito tempo:
FONTES DE LUZ…
                                                              
Baldos tem vinte luzes
Em perfeita noite de verão.

Conversam com as estrelas
Para confessar a paixão:
De brilhar olhando o vale
De luzir aquém dos montes
De queimar todas as fontes
Que incendeiam o coração!

As vinte luzes de Baldos
Projetam no meu olhar constelações
De tantos astros suspensos
Que o meu espírito inquieto
Viaja como se fora intruso
Nas asas cintilantes de um minúsculo avião.
==== Ant. Bondoso
Agosto de 2016.



António Bondoso
Jornalista
Agosto de 2017.

2017-08-22

MOIMENTA DA BEIRA DEVE ASSUMIR A LIDERANÇA DA REGIÃO.



MOIMENTA DA BEIRA DEVE ASSUMIR A LIDERANÇA DA REGIÃO.
Com esta ideia genérica, José Eduardo Ferreira parte para a sua última campanha autárquica sem promessas mas com dois compromissos: uma aproximação ainda maior ao tecido empresarial, de modo a inverter o ciclo da desertificação do interior e evitar o que chama de ponto de não retorno e, por outro lado, uma forte determinação pessoal em continuar a afirmar Moimenta em todos os Fora nacionais e internacionais, com capacidade e competência.  
José Eduardo Ferreira, que já leva 8 anos como Presidente do Município e que teve uma larga e longa experiência como vereador da oposição, é visto pelos órgãos dirigentes do partido socialista como um dos melhores presidentes de câmara a nível nacional. Foi isso que vieram dizer a Moimenta o líder do PS/Viseu, António Borges e, em representação do secretário-geral do partido, o Professor Caldeira Cabral, atual ministro da economia.
Sendo a sua última campanha autárquica, José Eduardo Ferreira apelou ao voto de todos a 1 de Outubro, de forma a que as listas do PS consigam a maior vitória de sempre. Porque é merecida, na sua opinião. E justificou com obras, mas sobretudo com o esforço para deixar uma situação financeira consistente. Realçando a confortável capacidade de endividamento na ordem dos 58%, o autarca frisou que não é possível almejar desenvolvimento sem ter contas saudáveis. E lembrou que, mais do que as obras, o que conta verdadeiramente é a capacidade de inclusão – da sociedade em geral e das empresas em particular – para fazer do interior um espaço vivo!
Na sessão de apresentação da candidatura, vários oradores lembraram a ação de José Eduardo Ferreira, quer pelo facto de devolver prestígio a Moimenta da Beira, quer pelo pormenor de ter colocado Moimenta no mapa, ultrapassando as muralhas da interioridade e criando uma nova centralidade. O candidato à presidência da Assembleia Municipal, Alcides Sarmento, lembrou por exemplo que o desenvolvimento reflete particularmente a forma como a sociedade se organiza, sendo fator determinante a inclusão. E a propósito do protagonismo que fez de Moimenta da Beira a nova centralidade da região, Alcides Sarmento recuou a 1857 e ao Juiz da Comarca José Freire de Serpa Pimentel – 2º Visconde de Gouveia – para valorizar a ideia de “um concelho populoso e extenso, uma vila que pela sua posição geográfica, pelo seu comércio e pela sua indústria podia ser chamada a rainha das povoações dum círculo não pequeno…”(1).
Ainda uma outra ideia de José Eduardo Ferreira, para fechar este apontamento: não há renovação de mandatos. Cada um é um projeto novo que exige construir uma solução nova. E o lema da campanha “Uma Força Nova para…seguirmos juntos” está aí plasmado. O importante é o respeito por todos, mesmo por aqueles que não querem estar na campanha do PS. Proximidade, legitimidade, lealdade, humildade…para a liderança da região que Moimenta da Beira deve assumir. Como realçou, ou a região se desenvolve em conjunto…ou poderá vir a desaparecer igualmente em conjunto.
(1)- em OS OITO CONCELHOS DE MOIMENTA DA BEIRA. 3ª edição, Agosto de 2001. A. BENTO DA GUIA. Pg.186.
António Bondoso
Jornalista

Agosto de 2017

2017-07-12


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S. TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS. 

Composição fotográfica de Miguel Bondoso


UMA CERTA INDEPENDÊNCIA QUE CHEGOU A S.TOMÉ E PRÍNCIPE HÁ 42 ANOS.
“Independência é uma coisa bela
E santa, mas é preciso compreendê-la!”
(Marcelo da Veiga, Amadora – 20/07/63)
                                                                         
É um facto para celebrar, sem qualquer ponta de dúvida, independentemente das ilusões e das pedras no caminho, muito acima de qualquer reação menos positiva sobre a evolução do processo da construção do novo país. Nunca há apenas uma rota segura, há bifurcações que conduzem a determinadas políticas, sempre tendo em conta a conjuntura de amigos e de parceiros, sempre tendo em conta o momento político específico de cada região e/ou da chamada comunidade internacional. Determinadas opções são válidas para cada um dos momentos. Realismo, diz-se. Mas há ideias e atitudes que não podem ser maculadas num país moderno, como por exemplo os direitos fundamentais dos cidadãos e o sentido de responsabilidade – individual e coletiva.
         Por muito que perceba as desilusões, e compreendo-as porque as sinto igualmente na democracia portuguesa, não me revejo em qualquer tipo de atitude balizada pela ideia de luto. O desânimo posso aceitar, mas é fundamental nunca desistir da luta pelos valores essenciais como a liberdade e a democracia participativa. Cidadãos ativos precisam-se, embora não seja fácil. Nunca é fácil. Permito-me citar a propósito um excerto de um texto de Solange Salvaterra Pinto no facebook:  
É o nosso país.
Porque raio vamos enterrá lo.
As pessoas que enterro, tenho umas saudades que doem....
Não quero estar dorida por causa do meu país.
Meu São Tomé e Príncipe que amo.
Que amas.
Que amamos, apesar dos pesares.
No dia 12 vou festejar com toda a garra os 42 anos ........
Façamos nos próximos 42 , algo que nos possamos orgulhar.
O nosso legado será esse.
Tornar STP um lugar melhor para os nossos filhos.
Esse é o nosso compromisso.
A nossa obrigação.
A nossa tarefa maior.
         Parabéns ao país por mais um aniversário soberano, um abraço fraterno a todos os cidadãos de S. Tomé e do Príncipe – particularmente aos amigos que me acompanharam em cada um dos anos que vivi no paraíso, mesmo aqueles que já partiram deste mundo.
         Escrevi no meu livro ESCRAVOS DO PARAÍSO, de 2005, que “De S. Tomé, a ilha que divide o mundo, diz Francisco Tenreiro que é a ilha «…dos cafezais floridos e dos cacaueiros balançando como mamas de uma mulher virgem». Do Príncipe de Maria Correia e da Praia do Precipício, escreve Marcelo da Veiga que é ali «…onde florescem palmas e cacaueiros e têm murmúrios doces os ribeiros”. Apesar da distância e da circunstância, estas são imagens que nunca perderão a essência. O país vale por si. Só é preciso seriedade e competência para fomentar o desenvolvimento.
         Voltando a Marcelo da Veiga e ao seu poema “Independência”, de 1963, deve reter-se a ideia de que
Independência não é
Vadiar, viver sem respeito;
Por tudo bater com o pé
E inchar, qual balão, o peito.
Independência não é cada um
Fazer só o que quer: comer, dormir,
Não sentir por ninguém respeito algum
E beber marufo até cair.
Atualizando e contextualizando, podemos sempre recorrer ao Hino de S. Tomé e Príncipe – um belo poema de Alda Espírito Santo – no qual se repetem palavras como combate, dinamismo, trabalhando, lutando, vencendo. E trabalhar e lutar é Cultura. Como Cultura é esforço e é respeito, a arte de pensar e de fazer. Como Cultura é imaginar e ousar, é o estudo e o saber, é beleza e simpatia. Como Cultura é sentimento e emoção, é amor e amizade, alegria e sofrimento. Como Cultura é o turismo, a arte de saber receber como sabe o povo de S. Tomé e do Príncipe. Como Cultura é a pesca e a agricultura. Como Cultura é não perder o cacau e é renovar o aroma do café. Como Cultura é ser livre e ter liberdade de expressão. Como Cultura é enfrentar o presente mas não idolatrar o petróleo. Cultura é ter orgulho de ser de STP…em qualquer ponto do mundo.
         S. Tomé e Príncipe é hoje um PEID – Pequeno Estado Insular Em Desenvolvimento – e que sobrevive em grande medida da ajuda externa e há muito ligado à panaceia do petróleo. Como já disse a jornalista e poetisa Conceição Lima, “Com ou sem petróleo, é minha opinião que se deve apostar em sectores como o turismo e o mar, cujas potencialidades são consensualmente reconhecidas hoje”.
         É exatamente esse mar que eu ainda hoje imagino, quando «olho o horizonte, sentado nesse espaço infinito entre a areia e o mar»; ou quando Albertino Bragança diz «pressentir que existe algo de espantoso e de belo nesse mar», lembrando lugares míticos como as sete pedras e a praia das sete ondas»; ou de como Inocência Mata descobriu há uns anos que «a sua memória de STP está ligada aos lugares que se metaforizam no Atlântico – esse mar que gera do sol o calor humano que a recebe no país».
         Parabéns S. Tomé e Príncipe. Que o presente seja digno e que o futuro seja feliz e risonho.

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António Bondoso
Jornalista
Julho de 2017.